A jornada de cuidar da mente é complexa, humana e cheia de nuances
Quando a Terapia Fere – e Quando Não Funciona: Reflexões Sobre os Dois Lados da Relação Terapêutica
Por Redação Eduardo Gonçalves
Começar uma terapia é, muitas vezes, um ato de coragem. Envolve abrir feridas, revisitar dores e confiar que alguém, do outro lado, saberá acolher tudo isso com escuta, técnica e empatia. Mas nem sempre é assim. E nem sempre a culpa está apenas de um lado.
Enquanto há relatos crescentes de pacientes que saem emocionalmente machucados de processos terapêuticos mal conduzidos, também há psicólogos que enfrentam grandes dificuldades em lidar com pacientes que não se comprometem com o processo, faltam repetidamente, se sabotam ou resistem profundamente a qualquer mudança.
Neste texto, tentamos olhar para os dois lados dessa relação — sem romantizar nem demonizar ninguém.
O lado difícil da má prática profissional
Há pacientes que entram no consultório já em estado de grande vulnerabilidade. E, para eles, encontrar um terapeuta despreparado pode ser devastador. Situações comuns incluem:
- Profissionais que se identificam demais com a queixa do paciente e passam a responder como se fossem eles vivendo o problema;
- Psicólogos que não desenvolveram autorregulação emocional e reagem com irritação, frieza ou ironia;
- Falta de escuta real: o terapeuta fala mais do que ouve, assume um tom professoral, diretivo demais, ou parece “desconectado” da dor do outro;
- Falta de empatia e presença: o paciente sente que está falando para uma parede;
- Métodos mal aplicados, posturas invasivas ou julgadoras;
- Psicólogos que não se atualizam, não fazem supervisão ou não passaram por sua própria terapia — um pilar essencial da prática clínica.
Esses fatores podem levar o paciente a desistir da psicoterapia e carregar mais uma decepção emocional, além daquelas que já o trouxeram até ali.
Mas e quando o paciente não consegue se engajar?
Se por um lado existem profissionais despreparados, por outro, é importante reconhecer que nem todo paciente está emocionalmente pronto para o processo terapêutico — e isso também pode comprometer os resultados.
Entre os principais obstáculos, estão:
- Falta de compromisso: atrasos frequentes, faltas não justificadas e desinteresse pelas sessões;
- Autossabotagem: o paciente evita temas importantes, foge de reflexões desconfortáveis e resiste à mudança;
- Expectativas irreais: esperar soluções rápidas, “conselhos prontos” ou cura em poucas sessões;
- Projeções no terapeuta: ver o psicólogo como um salvador, inimigo, ou alguém que deve “resolver” sua vida;
- Negação e resistência profunda: não aceitar que há problemas que precisam ser trabalhados ou negar o próprio sofrimento.
Essas atitudes não significam que o paciente “está errado” — afinal, resistências são naturais no processo terapêutico. Mas quando persistem sem reflexão, acabam criando um ciclo de frustração que impede o avanço.
A relação terapêutica é construída a dois
É preciso lembrar que a terapia não é um serviço comum, como ir ao dentista ou consultar um clínico. É um encontro entre duas subjetividades: alguém que busca ajuda, e alguém preparado para oferecê-la — dentro de limites humanos.
Nem todo psicólogo será o ideal para todos os pacientes. E nem todo paciente estará pronto para qualquer terapeuta.
Existem psicólogos incríveis que encontram pacientes fechados, agressivos ou altamente resistentes. Assim como existem pacientes sinceros e comprometidos que enfrentam psicólogos frios, mal formados ou desinteressados.
Por isso, a terapia funciona melhor quando ambas as partes estão dispostas a construir uma relação baseada em respeito, confiança e responsabilidade compartilhada.
Terapia não é mágica — é processo
A psicoterapia é uma jornada, e nem sempre será confortável. Mas há uma diferença enorme entre o desconforto necessário ao crescimento e o sofrimento causado por um vínculo mal estabelecido ou por práticas prejudiciais.
Seja por parte do paciente ou do terapeuta, quando algo não vai bem, é necessário falar sobre isso. Muitos processos terapêuticos são salvos quando existe abertura para nomear o que está acontecendo.
Quando mudar de terapeuta?
Mudar de psicólogo não é fracasso — é maturidade. Algumas razões legítimas para procurar outro profissional incluem:
- Sensação constante de julgamento ou desprezo
- Falta de vínculo e conexão mesmo após várias sessões
- Interrupções frequentes ou cancelamentos por parte do profissional
- Dificuldade em avançar no processo por falta de sintonia
- Técnicas ou abordagens que claramente não funcionam para você
Ao mesmo tempo, é válido refletir: estou mesmo dando uma chance a esse processo? Estou participando de forma ativa? Estou trazendo minhas dificuldades para a conversa?
Conclusão: é preciso responsabilidade dos dois lados
A saúde mental não é simples. Nem para quem cuida, nem para quem busca cuidado. Terapeutas são humanos — mas precisam estar em constante formação, supervisão e revisão de sua prática. Pacientes, por sua vez, precisam entender que terapia não é consumo passivo: é construção conjunta.
A boa terapia é aquela em que ambos estão presentes, comprometidos e abertos — inclusive a rever seus próprios papéis no processo.
Se você já teve uma experiência ruim, saiba: você não está sozinho. E isso não significa que a terapia não é para você. Pode apenas significar que ainda não encontrou a pessoa certa para caminhar ao seu lado.
E se você é terapeuta e se vê em alguma dessas descrições, isso também não o torna um “mau profissional”. Mas talvez seja hora de parar, refletir e — como qualquer ser humano em evolução — cuidar de si para cuidar melhor do outro.



